segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Filme Diários de Motocicleta

Filme  "Diários de Motocicleta", elaborado para um contexto de aula de Sociologia, História e Filosofia.



Uma Jornada pela América Latina: "Diários de Motocicleta" e a Descoberta de uma Consciência Social


01. O que é Consciência Social?

Consciência social é a habilidade de compreender o próprio papel na sociedade, ter empatia pelas outras pessoas e reconhecer as questões sociais, políticas e ambientais que afetam a coletividade. Desenvolver a consciência social significa ter a capacidade de considerar as perspectivas alheias, respeitar as diferenças e agir com responsabilidade, buscando entender as raízes dos problemas sociais para contribuir para um mundo mais justo e inclusivo. 

02. Componentes da consciência social

Empatia: A capacidade de se colocar no lugar do outro, entender seus sentimentos e emoções.
Perspectiva: Habilidade de considerar e entender o ponto de vista de outras pessoas, grupos e comunidades.

Responsabilidade social: O entendimento de que se tem direitos e deveres para com a sociedade, buscando agir para resolver injustiças e problemas sociais.

Respeito: Valorizar e respeitar a diversidade, a pluralidade e as diferenças individuais e culturais. 
Importância.

Desenvolvimento pessoal: Contribui para a formação da personalidade, tornando as pessoas mais responsáveis e justas.

Relacionamentos: Fortalece os relacionamentos interpessoais, melhora a comunicação e a resolução de conflitos.

Ação coletiva: Inspira a ação em busca de justiça social e o engajamento em causas que beneficiam a sociedade.

Liderança: É uma habilidade fundamental para líderes, que conseguem influenciar e desenvolver equipes de forma mais eficaz.

Melhoria social: Ajuda a identificar as causas dos problemas sociais e incentiva a busca por soluções e melhorias para a comunidade como um todo. 

03.  Sinopse do filme: Mais do que uma Aventura, um Rito de Passagem

"Diários de Motocicleta" (2004), dirigido por Walter Salles, narra a jornada de dois jovens argentinos, Ernesto Guevara de la Serna (futuro Che Guevara) e seu amigo Alberto Granado, em uma viagem de motocicleta através da América do Sul em 1952. O que começa como uma aventura juvenil, um último suspiro de liberdade antes da vida adulta, transforma-se radicalmente em um profundo processo de aprendizado e transformação. A motocicleta, batizada de "A Poderosa", simboliza inicialmente a máquina de seus sonhos, mas acaba sucumbindo ao caminho acidentado, forçando os viajantes a continuarem a pé, de carona ou de barco. Esse colapso do veículo é uma metáfora poderosa para o desmoronamento de suas visões de mundo pré-concebidas. A viagem física torna-se uma viagem de descoberta interior, onde Ernesto, um estudante de medicina de classe média, entra em contato direto com o coração pulsante e, muitas vezes, sofrido, do continente latino-americano.

04. A Sociologia e a História no Caminho: Desnaturalizando a Realidade

A grande contribuição do filme para nosso pensamento crítico está em sua capacidade de desnaturalizar as realidades sociais. O que para muitos era (e ainda é) visto como "o jeito que as coisas são", para Ernesto torna-se uma série de construções históricas e culturais injustas que precisam ser questionadas.

· Análise do Status Quo e Desigualdade Social: O status quo, ou a situação atual, é apresentado como um sistema que beneficia uma minoria às custas da maioria. Ernesto testemunha isso em diversos momentos:

  · Exemplo 1: O Casal de Mineiros Perseguidos. Encontrar um casal de trabalhadores mineiros, fugitivos por se organizarem por melhores condições, é a primeira grande fissura na visão de mundo de Ernesto. Ele percebe que o sistema jurídico e policial não é neutro; ele atua para proteger os interesses dos exploradores, criminalizando a luta dos explorados.

  · Exemplo 2: A Exploração dos Trabalhadores da Mina de Cobre de Chuquicamata, Chile. A cena na mineração é uma aula de sociologia do trabalho. Ernesto e Alberto veem de perto a vida dos trabalhadores, reduzidos a meros instrumentos descartáveis em um sistema que valoriza mais o cobre do que a vida humana. A paisagem árida e inóspita reflete a aridez de suas existências, mostrando como a pobreza não é uma falha individual, mas uma consequência estrutural da exploração capitalista.

05. A Construção de uma Identidade Latino-Americana e a Crítica ao Imperialismo

A viagem permite a Ernesto transcender as fronteiras nacionais. Ele deixa de ser apenas um argentino e passa a se identificar como latino-americano. Essa nova identidade surge da percepção de que os povos do continente compartilham histórias semelhantes de dominação, pobreza e resistência.

· O Imperialismo e o Racismo: O filme conecta a pobreza ao legado colonial e ao imperialismo moderno. A visita às ruínas de Machu Picchu é um momento crucial. Ernesto reflete sobre a grandeza da civilização inca, destruída pela colonização europeia. Ele critica abertamente a dominação estrangeira, percebendo que as riquezas do continente são continuamente drenadas para o exterior, deixando para trás miséria e um povo subjugado. O racismo contra as populações indígenas, que ele testemunha, é entendido como uma ferramenta de opração para justificar essa exploração, criando uma hierarquia social onde o europeu (ou seu descendente branco) é superior.

06. A Formação de Che Guevara: A Fusão entre a Teoria e a Prática

A transformação de Ernesto, o estudante, em Che, o revolucionário, é o cerne do filme. A Filosofia nos ajuda a entender isso como um processo de práxis – a união entre a reflexão teórica e a ação prática.

· A Teoria: Ernesto era um jovem instruído, com acesso a livros e ideias. Ele tinha um conhecimento sobre a pobreza e a injustiça.

· A Prática: A viagem fornece a experiência sensível. Ele não lê sobre a lepra, ele a vê. Ele não estuda a fome, ele a sente na pele ao dividir uma refeição miserável com um casal faminto. Ele não debate o racismo em sala de aula, ele o presencia na forma como os pacientes indígenas são tratados na colônia de leprosos.

· A Síntese (A Práxis): A fusão entre o que ele sabia (teoria) e o que ele viveu (prática) gera uma nova consciência. A cena final, no seu aniversário, é a cristalização disso. Ele atravessa o rio a nado, desafiando as regras que segregam doentes e saudáveis, em um ato simbólico de união e humanidade. Seu brinde não é por si mesmo, mas "pelo Peru e por uma América Unida". A jornada terminou, e o revolucionário nasceu.

Conclusão para Reflexão em Sala:

"Diários de Motocicleta" não é um filme sobre um herói pronto, mas sobre o nascimento de uma consciência crítica. Ele nos convida a sair de nossas "bolhas" e a olhar para a realidade social não como um dado natural, mas como uma construção humana, passível de transformação. A pergunta que fica, e que devemos levar conosco, é: O que nos motiva a questionar o status quo? Que jornadas – físicas ou intelectuais – precisamos empreender para desenvolver nossa própria consciência crítica sobre o mundo e nossa posição nele?

O filme nos ensina que a mudança começa com a capacidade de se indignar com a injustiça e, principalmente, de se solidarizar com aqueles que a sofrem.

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ATIVIDADE PONTUADA (+1,5)


Exercício: Análise do Filme "Diários de Motocicleta"

Nome: _________________________________________
Data:_____________
Turma:_____________

Instruções:
Leia atentamente o texto"Uma Jornada pela América Latina: 'Diários de Motocicleta' e a Descoberta de uma Consciência Social" e responda às questões abaixo.

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PARTE 1: QUESTÕES DISCURSIVAS (01 a 08)

As respostas para estas questões devem ser encontradas diretamente no texto fornecido.

01. De acordo com a sinopse apresentada no texto, qual era o objetivo inicial da viagem de Ernesto e Alberto, e como ele se transformou?


02. O que a quebra da motocicleta, "A Poderosa", simboliza metaforicamente na jornada dos personagens?


03. O que significa "desnaturalizar" as realidades sociais, um conceito chave apresentado no texto?


04. Forneça os dois exemplos do filme citados no texto que ilustram a análise do status quo e a desigualdade social.


05. Como a viagem contribuiu para a formação de uma nova identidade em Ernesto?


06. Segundo o texto, como o filme conecta a pobreza na América Latina a questões históricas mais amplas?


07. O conceito filosófico de "práxis" é usado para explicar a transformação de Ernesto. Explique o que é "A Teoria" e "A Prática" neste contexto.


08. Qual é o ato simbólico na cena final do filme que cristaliza a transformação de Ernesto, e qual é o teor de seu brinde?


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PARTE 2: QUESTÕES DE MÚLTIPLA ESCOLHA (09 a 16)

Marque a alternativa correta.

09. O filme "Diários de Motocicleta" se passa em que ano e é dirigido por quem?

a)2002, por Fernando Meirelles
b)2004, por Walter Salles
c)1952, por Alberto Granado
d)2006, por José Padilha


10. A capacidade de se colocar no lugar do outro, entendendo seus sentimentos, é um dos componentes da consciência social conhecido como:

a)Responsabilidade Social
b)Perspectiva
c)Respeito
d)Empatia


11. A cena do casal de mineiros perseguidos é significativa porque mostra a Ernesto que:
a)A vida na estrada é perigosa.

b)O sistema jurídico-policial não é neutro e protege os interesses dos exploradores.
c)Os trabalhadores não devem se organizar.
d)A Argentina é um país mais justo que seus vizinhos.


12. A visita às ruínas de Machu Picchu no filme serve principalmente para:

a)Mostrar um ponto turístico famoso.
b)Criticar a grandiosidade das civilizações antigas.
c)Refletir sobre a grandeza de uma civilização destruída pela colonização e conectar isso à crítica do imperialismo.
d)Demonstrar o interesse de Ernesto pela arquitetura.


13. O conceito de "práxis", central para entender a transformação do personagem, refere-se à:

a)União entre reflexão teórica e ação prática.
b)Teoria pura sobre a revolução.
c)Aventura sem objetivos claros.
d)Prática médica de Ernesto.


14. A conclusão do texto propõe que a mudança social começa com:

a)O acesso à educação formal.
b)A capacidade de se indignar com a injustiça e se solidarizar com quem a sofre.
c)A necessidade de viajar pelo mundo.
d)O estudo aprofundado da economia.


15. Qual dos seguintes NÃO é apontado no texto como um componente da consciência social?

a)Empatia
b)Responsabilidade Social
c)Obediência Hierárquica
d)Respeito


16. A paisagem árida e inóspita da mina de Chuquicamata, no filme, é usada para refletir:

a)A beleza natural do deserto.
b)A aridez da existência dos trabalhadores explorados.
c)O desafio da aventura dos viajantes.
d)A falta de água no continente.


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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Lobby - Lobismo (Ato de influenciar decisões do poder político)


Lobismo: A Influência Organizada sobre o Poder





Lobby


Representa um grupo de interesse, geralmente que detém poder, que deseja influenciar um ou mais tomadores de decisões públicas a fim de obter objetivos lícitos ou evitar prejuízos. O lobby não representa apenas o interesse particular, mas também o interesse coletivo de algumas pessoas ou mesmo os interesses públicos.

O que é Lobismo?

O lobismo (ou lobby) é uma atividade legítima e organizada de influência, por meio da qual grupos de interesse (empresas, sindicatos, ONGs, associações etc.) buscam dialogar com tomadores de decisão – como parlamentares, membros do Poder Executivo e reguladores – para apresentar suas perspectivas, propostas e preocupações sobre projetos de lei, políticas públicas e regulamentações.

Em sua essência, o lobby é um mecanismo de representação de interesses no âmbito do Estado. É uma forma de comunicação técnica e política que visa informar e convencer os agentes públicos, contribuindo para a formação de decisões mais embasadas.

A Origem do Lobby

O termo "lobby" tem origem na palavra inglesa para "saguão" ou "vestíbulo". A história mais difundida remonta ao século XIX, no Reino Unido, onde cidadãos e representantes de grupos se encontravam nos saguões (lobbies) do Parlamento de Westminster para abordar os membros da Casa e tentar influenciar seus votos. Nos Estados Unidos, a prática se consolidou e se profissionalizou, especialmente a partir do século XX, com a criação de um marco regulatório específico que exige o registro e a transparência dos agentes de lobby (lobistas) que atuam junto ao Congresso.

Objetivos do Lobby

Os objetivos do lobby são variados, mas sempre giram em torno de influenciar o processo decisório:

· Defender Interesses Setoriais: Impedir a aprovação de uma lei que seja prejudicial a um setor da economia ou promover uma regulamentação que o beneficie.
· Promover Políticas Públicas: Convencer o governo a adotar políticas em áreas como meio ambiente, saúde, educação ou tecnologia.
· Obter Benefícios Fiscais: Buscar a redução ou isenção de impostos para um determinado produto ou atividade.
· Influenciar Licitações e Contratos: Defender os interesses de empresas em processos de compra governamental.
· Monitorar a Agenda Pública: Acompanhar de perto a tramitação de projetos de lei e as discussões em comissões parlamentares.

Exemplos de Lobby na Prática

· Setor Farmacêutico: Atua junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ao Congresso para discutir prazos de patentes, regulamentação de medicamentos e preços.
· Bancos: Dialogam constantemente com o Banco Central e o Ministério da Fazenda sobre temas como taxas de juros, regras de crédito e legislação financeira.
· Agronegócio: Mantém forte atuação no Congresso Nacional, especialmente na Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), para tratar de questões fundiárias, ambientais e de comércio exterior.
· Organizações Ambientalistas: Fazem lobby para pressionar por leis mais rigorosas de proteção ambiental e contra projetos que considerem predatórios.

Pontos Positivos e Negativos do Lobismo

Pontos Positivos:

· Tecnicidade: Fornece dados técnicos e especializados aos legisladores, que nem sempre dominam todos os temas sobre os quais votam.
· Transparência: Quando regulamentado, o lobby torna explícito quem está defendendo qual interesse, tornando o processo mais transparente.
· Representatividade: Permite que diversos setores da sociedade (não apenas os economicamente poderosos) tenham voz perto do Estado.
· Mediação de Conflitos: Funciona como um canal institucionalizado para a negociação de interesses conflitantes.

Pontos Negativos:

· Assimetria de Poder: Grupos com mais recursos financeiros podem ter uma influência desproporcional, abafando a voz de minorias e da sociedade civil.
· Risco de Corrupção: A linha que separa a influência legítima da corrupção (como suborno e tráfico de influência) é tênue e pode ser ultrapassada.
· Captura do Estado: Quando um grupo consegue influenciar tanto o regulador que este passa a agir mais em benefício do grupo do que do interesse público.
· Descrédito da Política: A percepção de que as leis são "compradas" por quem tem mais poder econômico gera desconfiança na população.

O Lobby é Permitido no Brasil?

Esta é uma questão central e de resposta complexa. Sim, a atividade de lobby é permitida no Brasil, mas ela não é devidamente regulamentada por uma lei federal específica.

A Constituição Federal garante o direito de petição e a livre associação, que são a base jurídica para a atividade. No entanto, diversas tentativas de criar uma lei que discipline a profissão de lobista, exija seu registro e imponha regras de transparência tramitam no Congresso há décadas, sem sucesso.

A ausência de uma lei específica não torna a atividade ilegal, mas a deixa em uma "zona cinzenta". Isso significa que o lobby existe e é intensamente praticado, mas sem os controles e a publicidade necessários para mitigar seus aspectos negativos.

Se não é (plenamente) regulamentado, por que ele existe?

O lobby existe porque é uma necessidade inerente a qualquer democracia complexa. Governos precisam de informações técnicas para legislar e regular. Setores da economia e da sociedade precisam se comunicar com o Estado para sobreviver e prosperar. A falta de regras não extingue a prática; pelo contrário, a joga na informalidade, aumentando os riscos de abuso e corrupção. A regulamentação é vista por especialistas como a forma de transformar uma prática oculta em uma atividade transparente e ética.

Quais são os grupos que fazem lobby no Brasil?

Uma vasta gama de atores pratica lobby no Brasil, com diferentes níveis de organização e recursos:

1. Grupos Empresariais: São os mais ativos e poderosos. Incluem federações industriais (como a FIESP), associações comerciais, bancos e grandes corporações de todos os setores (energia, mineração, comunicação, etc.).
2. Sindicatos e Centrais Sindicais: Atuam em defesa dos direitos trabalhistas, salários e políticas de emprego.
3. Organizações do Agronegócio: Como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a FPA no Congresso, com enorme poder de influência.
4. Organizações Não Governamentais (ONGs) e Movimentos Sociais: Defendem causas como direitos humanos, meio ambiente, moradia, igualdade racial e de gênero.
5. Entidades de Classe: Como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM).
6. Governos: Estados e municípios mantêm escritórios em Brasília para fazer lobby pela captação de recursos e aprovação de projetos de interesse regional.

A relação estreita entre a atividade lobista e a desigualdade 

A relação entre lobby e desigualdade se manifesta de duas formas principais: o lobby legítimo pode mitigar a desigualdade, ao dar voz a grupos menos representados, enquanto o lobby pode aprofundá-la ao privilegiar interesses econômicos poderosos em detrimento da coletividade, especialmente na ausência de regulamentação que garanta transparência e acesso equitativo. A falta de regulação no Brasil permite que a prática seja confundida com corrupção e tráfego de influências, o que desvirtua o propósito do lobby e pode levar a resultados injustos e ineficientes para o poder público. 

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Conclusão:

O lobismo é uma faca de dois gumes. É um instrumento vital para a democracia, permitindo o diálogo entre sociedade e Estado. No entanto, sem transparência e regras claras, pode se tornar um canal de privilégios e corrupção. O grande desafio brasileiro não é acabar com o lobby – algo praticamente impossível e indesejável – mas sim trazê-lo para a luz, regulamentando-o para que funcione como uma ferramenta a serviço do interesse público e não de interesses escusos.